quarta-feira, 21 de março de 2012

Entrevista - Ancesttral: "...a cena está forte!" [ + download]


Formada em 2003, a banda de thrash metal paulistana "Ancesttral" consolidou seu nome no cenário do heavy metal brasileiro, em 2007, com o lançamento daquele que foi um dos álbuns mais aclamados pela crítica especializada naquele ano, "The Famous Unknown".



O grupo já havia dado uma prévia do seu 'poder de fogo' no EP "Helleluiah" (2005), é verdade; contudo, dois anos após, com seu disco de estréia, conseguiriam ainda surpreender, o público e a crítica, tanto pelas composições  - com fortes influências do thrash metal oitentista - quanto pela excelente produção do trabalho - realizada por Marcello Pompeu e Heros Trench (ambos do 'Korzus'). Apesar da excelente resposta, o "Ancesttral" atravessou um hiato de cinco anos sem composições inéditas.

Agora, com o lançamento do EP "Bloodshed and Violence", o quarteto formado por Alexandre Grunheidt (guitarra e vocal), Renato Canonico (baixo), Leonardo Brito (guitarra) e Rafael Rosa (batera)  ameaça lançar um álbum ainda mais consistente que o anterior.

Alexandre Grunheidt

Membro fundador da banda, Alexandre Grunheidt revela-nos a atual situação do "Ancesttral", mas, claro, sem esquecer do passado da grupo. Além disso, o músico ainda compartilha sua visão acerca da produção de heavy metal no Brasil. Confira.


Hangover-Music: Vamos começar falando de 'Bloodshed and Violence'. Digamos que ele funciona como uma boa prévia, mas o que o público poderá esperar, especificamente, do próximo lançamento do 'Ancesttral'?

Alexandre Grunheidt: Uma banda muito mais madura, focada e com composições mais fortes. Muito tempo se passou desde o primeiro CD e hoje, com essa formação, não há limites para a criatividade. O que era pesado ficará mais pesado. O que era rápido ficará mais rápido. Mas, nunca iremos abrir mão de melodias e, principalmente, refrãos que façam as pessoas se lembrarem das músicas, pois esse sempre foi e sempre será o nosso objetivo.

HM: Bem, 'The Famous Unknown' obteve uma ótima resposta dos críticos e do público. Porém, a banda passou quase cinco anos sem dar produzir e/ou 'ameaçar' lançar material novo. Houve alguma razão em especial para isso?

AG: Ficamos sem baterista por duas vezes entre 2008 e 2010. E isso atrasou demais as composições do novo CD. Chegamos a combinar com o Rodrigo Oliveira (Korzus), que nos ajudou em shows nessa época, que ele iria gravar o novo disco, mas o Rafael Rosa entrou na banda. Isso fez com que levássemos mais tempo até nos conhecermos e entrosarmos melhor. Mas agora que o processo já está bem encaminhado, não levaremos tanto tempo até o próximo disco.


"Nossas influências vão de 'Slayer' e 'Testament' até coisas mais modernas como 'Disturbed' e, principalmente, 'Godsmack'. Eu gosto mais das músicas arrastadas do que as rápidas e isso vai se refletir no próximo disco."



HM: Esse álbum contou, ainda, com a participação externa de diversos músicos, como Vitor Rodrigues ('Torture Squad') e Marcello Pompeu ('Korzus'), para citar alguns. De onde surgiu essa ideia de convidar tantos músicos para o disco? 

AG: Eles são amigos e todos estavam muito próximos de nós, na época da gravação. O Torture Squad desplugava suas coisas e nós plugávamos as nossas. O Pompeu produziu o CD junto com o Heros. E as músicas pediam vozes diferentes da minha para que fossem completadas da maneira que as imaginei.

HM: Aproveitando, há algum nome cotado para o próximo registro? 

AG: Para o próximo, não existe nada pensado, mas é bem provável que tenhamos uma ou duas participações especiais.


" Ser comparado ao James Hetfield é muito mais um elogio do que uma crítica. Essa é a minha voz. Não tento parecer com ele. (...) Claro que o trabalho de 21 anos fazendo Metallica Cover acaba potencializando essa semelhança, mas não é nada proposital e sim natural".



HM: Apesar do som da banda centrar-se  no 'thrash metal', em 'The Famous Unknown' temos uma das faixas mais atípicas, se comparada com o restante, "Endless Trip". Nela nota-se uma influência moderna mais acentuada e riffs mais arrastados... isso para não comentar do clima gótico criado pelo vocal de Roger Lombardi. Agora, em "Bloodshed and Violence", vocês realizaram um cover para "I" ('Black Sabbath'). Afinal, quais são as influências do 'Ancesttral' e como elas refletem nas suas composições?

AG: Nossas influências vão de 'Slayer' e 'Testament' até coisas mais modernas como 'Disturbed' e, principalmente, 'Godsmack'. Eu gosto muito mais das músicas arrastadas do que as rápidas e isso vai se refletir no próximo disco. Não que ele não terá músicas rápidas, pois nossa veia thrash metal é inegável. Mas minhas músicas favoritas das bandas de thrash são, por exemplo, 'Good Day to Die', do 'Exodus', e 'The Thing that Should Not Be', do 'Metallica' (*). Prefiro passar a sensação de raiva com uma música carregada, ao invés de velocidade pura e simples.

*Nota: Ambas as composições são bem 'arrastadas' para o padrão das bandas mencionadas.


HM: Ainda falando do som da banda, as letras das músicas, no geral, são bem interessantes, vide a faixa "Helleluiah". De que forma elas são trabalhadas e complementam as composições do "Ancesttral"?

AG: Falamos sobre aquilo que nos incomoda. Se eu vejo os Bispos de uma “Igreja” fazendo seus fiéis de otários, colocamos para fora. Hoje vemos que a violência está espalhada de uma maneira espantosa, ao ponto de um louco entrar em uma escola pública com um revolver e matar crianças inocentes a troco de nada. Isso tudo se reflete no nosso modo de escrever.


Capa do debut da banda, 'The Famous Unkown'.



HM:  Nos conte algo sobre o conceito da famosa ilustração, criada por Gustavo Sazes, de "The Famous Unknown".

AG: Essa pergunta é muito difícil, pois todo aquele conceito saiu da cabeça do Gustavo Sazes! Para nós ela é motivo de orgulho, pois além dos prêmios que recebeu, foi quem despertou a curiosidade das pessoas em relação ao CD. Muitos donos de loja me disseram que pessoas compraram o CD por causa da capa e, ainda bem, não se arrependeram. No final das contas, sem querer, acabou-se criando uma espécie de “Eddie do Ancesttral”! Muitos perguntam se o personagem irá voltar no próximo CD. Respondemos sempre que sim, mas só não sabemos exatamente de que forma.

HM: Acho a inserção de pequenas vinhetas, durante várias composiçãoes da banda, algo bem criativo e diferenciado. E, ouvindo "Bloodshed and Violence", vi que elas continuaram... utilizar uma em português foi realmente interessante! De onde veio essa ideia e de que forma as vinhetas complementam as músicas da banda?

AG: As vinhetas são um preparativo para o que virá, quando começar a música, e quero sempre contar um pouco da história nelas. Elas viraram uma marca registrada da banda, assim como é para uma das nossas maiores influências, o 'White/Rob Zombie'. Para "Bloodshed and Violence", nada melhor do que passar mensagens com vozes que são muito familiares aos nossos fãs brasileiros e, mesmo as que estão falando em inglês, estão falando sobre atos de violência no Brasil.


"A cena está forte e quem reclama que ela morreu não sabe o que está falando, ou foi muito paparicado no passado e, hoje, perdeu sua 'majestade'. (...) Reclamar que a cena está morta não ajuda em nada, só atrapalha."

 
HM: ...e ao vivo, como a música da banda funciona?

AG: Ao vivo é exatamente o que se ouve no disco. Não criamos coisas que não podem ser reproduzidas ou que precise de muitos recursos tecnológicos. Colocamos as vinhetas e aberturas, pois é uma coisa muito fácil de fazer e acredito até que o público espera por isso, já que virou uma marca registrada da banda. E posso dizer que ao vivo procuramos passar para o público que estamos nos divertindo no palco e esperamos que eles se divirtam conosco.


HM: Mudando um pouco o assunto, recentemente vocês foram homenageados  pela banda paulista "Woslom", que fez uma versão bem interessante para "The Famous Unknown". O que vocês acharam deste cover e da atitude dos caras? 

AG: Todos da banda ficaram literalmente emocionados com a homenagem. Conhecemos os caras do 'Woslom' e acompanhamos o crescimento da banda muito de perto. É uma atitude que remete aos tempos em que realmente existia união no underground.


" (...) Estamos tentando viabilizar um projeto que irá mostrar para o Brasil a possibilidade de levar música de qualidade, com bandas dispostas a trabalhar sem querer prejudicar os outros, a um preço que o promotor local consiga ganhar dinheiro."


HM: Não poderia deixar de perguntar... qual a sua opinião sobre o atual cenário do heavy metal nacional?

AG: A cena está forte e quem reclama que ela morreu não sabe o que está falando, ou foi muito paparicado no passado e, hoje, perdeu sua "majestade". Temos vários canais para divulgar o som, como Facebook, Twitter, Youtube, programas como o Maloik, Stay Heavy, Radio Backstage, UOL Heavy Nation e se a banda realmente for boa ou relevante, seu público vai ao show e compra seus produtos. O Heavy Metal não admite reclamações de falta de espaço, pois nunca existiu tanto espaço quanto agora. Sei que às vezes o público pisa na bola, mas cabe às bandas fazerem um som de qualidade ao ponto de fazer com que as pessoas tirem seus traseiros do sofá e compareçam aos shows. Reclamar que a cena está morta não ajuda em nada, só atrapalha.

HM: Do seu ponto de vista, quais as maiores dificuldades em se ter uma banda de heavy metal que toca, digamos, composições próprias?


AG: As bandas tentam se profissionalizar, montar cenários, backdrops, levar seus próprios equipamentos para seus shows, mas os promotores sempre tentam ou não pagar nada, em troca do espaço para divulgação, ou barganhar o preço por achar que “isso é tudo frescura da banda. Pode colocar qualquer cubo de guitarra que tá bom”. Os músicos precisam começar a dar mais valor a sua arte. Tem muita banda boa por aí e existem meios de todos (bandas e promotores) ganharem dinheiro, sem ter que arrancar o couro um do outro. 

Estamos tentando viabilizar um projeto que irá mostrar para o Brasil que é possível levar música de qualidade, com bandas dispostas a trabalhar sem querer prejudicar os outros, a um preço que o promotor local consiga ganhar dinheiro. Aguarde...

HM: As comparações entre os seus vocais e o do James Hetfield ("Metallica") são constantes. Isso já te aborreceu? Até que ponto essas comparações tornam-se incômodas?

AG: De maneira nenhuma, muito pelo contrário. Ser comparado ao Hetfield é muito mais um elogio do que uma crítica. Essa é a minha voz. Não tento parecer com ele. Desde o "Brainwash", em 1989, eu canto dessa maneira. Claro que o trabalho de 21 anos fazendo Metallica Cover acaba potencializando essa semelhança, mas não é nada proposital e sim natural.


"Apoie a banda que você gosta, independente se ela é nacional ou internacional! Compre o CD, o DVD, vá aos shows e espalhe para os seus amigos. Isso só vai fortalecer mais ainda o estilo que tanto gostamos".


HM: O "Ancesttral" sempre teve uma grande rotatividade de bateristas e, recentemente, Rafael Rosa foi efetivado na banda. Como sua entrada e influências podem acrescentar/estão acrescentando no som da banda?

AG: Como eu disse antes, esse foi o nosso grande problema nos últimos quatro anos e parece ter sido solucionado com a entrada do Rafael. Ele é mais técnico do que os outros que já passaram pela banda e, por isso, faz com que toquemos melhor. Demoramos quase um ano ensaiando com ele para podermos efetiva-lo, pois não queríamos passar pelo processo de apresenta-lo e, caso não desse certo, ter que começar tudo de novo.  É uma troca de experiências, pois ele sempre tocou em bandas que exigiam técnica e velocidade. Segundo ele próprio, o Ancesttral exige dele técnica, às vezes velocidade, mas principalmente resistência, pois a pegada é a principal característica do nosso som.

HM: Para encerrar, o profissionalismo do "Ancesttral" - no que se refere a marketing e etc. - desde que conheço a banda, sempre me surpreendeu. Por conta disso, estranhei o fato de vocês não terem produzido nenhum vídeo-clipe para o disco anterior. Qual a sua posição perante a  isso? Alguma possibilidade para o álbum novo?

AG:  Estamos neste momento conversando a respeito do vídeo, já para o EP "Bloodshed and Violence", talvez até para as duas músicas próprias dele. Sinceramente, na época não era tão fácil gravar um vídeo como é agora, cinco anos depois e isso é uma coisa que me arrependo, pois adoraria ter gravado clipes para “We Kill” ou “Helleluiah”!

HM: Bem, obrigado pela entrevista, Alexandre. Boa sorte na divulgação do EP e nas gravações do próximo disco.

AG:  Nós é que agradecemos pela força e, ao contrário dos discursos ufanistas a respeito do Metal Nacional que temos ouvido ultimamente, a mensagem que eu deixo para os fãs de Heavy Metal é a seguinte: Apoie a banda que você gosta, independente se ela é nacional ou internacional! Compre o CD, o DVD, vá aos shows e espalhe para os seus amigos. Isso só vai fortalecer mais ainda o estilo que tanto gostamos.

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"Bloodshed and Violence" (EP virtual)



Tracklist:

1. Bloodshed And Violence 04:55  
2. Trust 04:46  
3. I (Black Sabbath cover) 05:54



Download




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2 comentários:

  1. Legal a entrevista, Tiago. Conheci a banda há mais ou menos 1 ano e achei muito o bom o som dos caras, peguei o EP esses dias e como comentei com você, curti pra caramba as duas musicas próprias, alem do cover que ficou animal também.
    A técnica dos caras não precisa nem comentar, alem do peso e melodia, que ficaram na medida certa.
    Bom ver que tem banda que ao invés de falarem mal da cena, do apoio, etc, tentam fazer algo pra mudar, para criar algo e ajudar a melhorar.
    Fico no aguardo do novo álbum e agora também desse projeto que o Alexandre comentou, que parece ter uma proposta muito boa. Valeu.

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  2. Baixando o EP para conferir \o

    Fer me falou da banda aqui e acho que combina com meu estilo, veremos.

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