Texto por Alberto Bezerra
Um
dia qualquer do ano de 2008, “navegando” pelo portal Whiplash!, descobri que
existia um livro sobre o álbum clássico do Pink Floyd “The Dark Side of Moon” (1973)
e pouco tempo depois estava eu com ele (o livro, pois o disco eu já tinha) em
mãos. Com a chegada das férias, tive tempo de me dedicar a sua leitura e cá estou
algumas semanas depois para escrever sobre ele.
Como afirmou Cleyton Lutz
(autor do texto do link exposto acima), sobre o livro do jornalista John Harris
“The
Dark Side of the Moon – Os Bastidores da Obra-Prima do Pink Floyd”, boa parte do exposto no livro sobre o
processo de composição e gravação do disco já se encontrava no documentário “The
Dark Side of the Moon”, filme da série “Classic Albums” (de 2003), porém, o
livro de Harris aprofunda alguns aspectos (por exemplo, no documentário, quando
se fala da cantora Clare Torry, vocalista na música “The Great Gig in the Sky”,
há apenas depoimentos positivos dos integrantes da banda, mas no livro a própria Clare menciona a dificuldade em encontrar um modo de
interpretar que agradasse aos músicos, bem como a frieza destes para com ela).
Outra diferença entre o documentário e o livro (em favor deste – e novamente repito Cleyton Lutz), é que neste se aborda toda a trajetória que culminou no “Dark Side”, desde os primórdios da banda, ainda com Syd Barrett. Pode-se, aliás, dividir o livro em duas partes: a tentativa de se livrar da sombra de Barrett (que era o mentor, cérebro e coração da banda em seu primeiro disco “Piper at the Gates of Dawn” de 1967) e o êxito desta tentativa, só alcançado com “Dark Side”. Tal posicionamento me parece problemático, pois estaria supervalorizando este disco em detrimento dos outros. É muito interessante a narrativa de Harris sobre a busca de uma nova identidade para a banda pós Syd Barrett, mas tive a sensação de que com isto ele desvaloriza álbuns importantes. Se é verdade que o “A Saucerful of Secrets” de 1968 – e não estou concordando com isso, pois meu péssimo inglês inviabiliza qualquer tentativa de análise – é liricamente pobre ou até mais que isso em relação a seu antecessor, em termos puramente musicais considero-o tão bom quanto.
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Pink Floyd ainda com Syd Barrett em sua formação |
Pior ainda (e me soa irritante) é a desvalorização em relação ao “Ummagumma” de 1969, considerado por Harris um disco apreciado apenas pelos fãs mais incondicionais da banda. Ok, talvez este seja o meu caso, mas me apaixonei pelo disco desde a primeira vez que o ouvi (estou me referindo apenas ao disco de estúdio), coisa que não aconteceu com o “Atom Heart Mother” (1970), que demorei certo tempo para apreciar. E conheço outras pessoas que têm grande apreço pelo “Ummagumma”. De qualquer forma, ainda que eu discorde que o “Dark side” marcou o caminhar da banda com as próprias pernas, “livre” da sombra de Barrett, não há como não elogiar a escolha de Harris em partir desde os primórdios da banda, acompanhando a gestação do “Dark Side” até seu parto. Destaco uma frase do guitarrista David Gilmour que justifica este enfoque: “Se você pegar A Saucerful of Secrets e as músicas ‘Atom Heart Mother’ e ‘Echoes’, tudo levaria de maneira lógica a Dark Side of the Moon” (p.64 ).
O livro se divide em seis capítulos, antecedidos por um prólogo; o primeiro chama-se “O lunático está na minha cabeça: Syd Barrett e a gênese do Pink Floyd” e possui o mérito de trazer informações pertinentes sobre o criador do Pink Floyd. O segundo capítulo é intitulado “À espera, em calmo desespero: Roger Waters e Pink Floyd, estágio II” e mostra a
tentativa da banda em criar uma identidade e de Waters em tomar a frente do
grupo. Os demais versam propriamente sobre o “Dark Side”; origem das músicas,
processo de gravação e repercussão do disco (este último aspecto não está no
documentário e merece ser destacado num parágrafo à parte); são intitulados “E
se a sua banda começa a tocar em tons diferentes: The Dark Side of the Moon
nasce”(3); “Em frente, ele gritou lá de
trás: Rumo a Abbey Road” (4); “Equilibrado na maior onda: Dark Side, fase três”
(5); “Quando enfim o trabalho está pronto: The Dark Side of the Moon
decola”(6).
Cumprindo
o prometido: um dos grandes méritos do livro é o relato da repercussão do “Dark
Side”, que proporcionou à banda tocar para um público imenso e
consequentemente, mais superficial. Cito depoimentos de Gilmour e Waters sobre
isso:
“O que mais me lembro desse período é da incrível
chateação nos shows”, diz Gilmour. “Nós apresentávamos em lugares onde a
garotada toda berrava ‘Money!’ durante todo o espetáculo. Estávamos acostumados
com aqueles fãs reverentes. ... Em alguns momentos queríamos um pouco de calma,
especialmente no começo de ‘Echoes’, e todos gritavam ‘Money!’” (Money foi o
single do disco, a “música de trabalho”);(p. 192)
“Levei dez anos para deixar de me incomodar
com as pessoas que assobiavam durante números calmos” disse Roger Waters em
1987. “Eu parava e dizia: Ei! Quem está assobiando? Vamos parar com isso –
silêncio!” (p. 192). É nessa época que o Pink Floyd se torna uma banda com
público gigantesco e ganha bastante dinheiro. O documentário expõe (e o livro
aprofunda) o dilema de Waters, que influenciado pelo posicionamento socialista
herdado dos pais, tem de decidir o que fazer com tanto dinheiro: tendo-o em
mãos, bye bye socialismo. Isto me remete a outro mérito do livro (e lacuna do
documentário): mostrar o ressentimento entre Waters e Gilmour (a empatia
presente no conceito do disco se encerrou nele: nas relações pessoais,
predominou a antipatia – após o “Dark Side”, Waters teria monopolizado as
composições e depois de terem lançado alguns discos clássicos como “Wish you
were here” (1975), “Animals” (1977) e “The Wall” (1979), Water saiu da banda e ficou furioso com a
decisão dos demais músicos de prosseguirem com ela). Assim, “Dark Side” teria
sido o auge da colaboração em conjunto da banda, marcando também o auge de fama
e dinheiro. Neste sentido, pode ser considerado seu ápice.
Cabe
salientar ainda o seguinte: a impessoalidade de John Harris constitui – no meu
entender – um ponto positivo e negativo simultaneamente. Negativo por ser uma
exposição essencialmente narrativo-descritiva; positivo por ele não se arriscar
a fazer o que não sabe (sobretudo interpretação do significado das músicas – no
capítulo sobre a repercussão do disco, são citados trechos de resenhas que me
soam pouco convincentes ao tentarem interpretá-lo).
Em
suma, ainda que não constitua uma obra exaustivamente detalhada ou aprofundada
e que possua um tom impessoal, “The Dark Side of the Moon – Os Bastidores da
Obra-Prima do Pink Floyd”
possui diversos méritos e merece ser lida pelos fãs da banda, e mesmo por aqueles
meramente simpatizantes. Destaco ainda as belas fotos (todas em preto e branco)
que perpassam o livro, fotos que vão da fase Syd Barrett até a turnê do “Dark
Side”, ilustrando o processo de gravação, a convivência, a conquista da fama,
a participação de técnicos de músicos convidados na gravação do disco...
Informações adicionais:
"The Dark Side of the Moon - Os Bastidores da Obra-Prima do Pink Floyd"
Autor: John Jarris
Editora: Jorge Zahar
Ano: 2006
Páginas: 224
OBS:
ResponderExcluirDe todas as matérias postadas no HM, esta foi a primeira que não foi escrita por mim. (:
Até hoje só consegui dois colaboradores p/ o blog de cinema que administro, então sei bem o sentido de realização dum momento como este.
ExcluirNa medida do possível, permanecerei colaborando.
Congratulações pelo blog e pela abertura do espaço a textos de outros.
Parabéns pelo texto, Alberto!
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